sábado, 25 de janeiro de 2014

o que tá acontecendo?

    Se eu penso, acontece. Se eu sonho, acontece. Vida louca essa, de tempos em tempos eu fico assim, meio vidente. Não que as coisas aconteçam exatamente como eu sonhei, mas sempre tem alguma ligação. Não me assusta, pelo contrário. Sempre lembro de uma vez que eu fiquei doente, e acabei emagrecendo sete quilos em uns vinte dias, minha resistência deitou no chão e acabei pegando muitas outras viroses e coisas do tipo. Cada dia que eu acordava eu tava mais parecida com a Noiva Cadáver, ai uma noite lá, meio delirante, eu sonhei que tava no colo de Deus, dormindo, como se ele me nanasse. Quando eu acordei finalmente consegui comer (meu estômago rejeitava tudo que eu comia), eu tenho certeza que aquilo não foi um sonho.
   Hoje já aconteceram três coisas que eu sonhei essa semana, to feliz! Era tudo meio bobo, mas eu gosto de saber que não me afasto de Deus e do meu queridão amigão Anjo da Guarda. Obrigada!

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Mas agora eu quero ser marceneira, ou marciana


Tanto faz, porque com as caixinhas de fruteira, que eu lixei e pintei, eu fiz uma estante e lá em Marte todas as estantes são de caixinha de fruteira.
Pode pintar de colorido. Pode sim! Lá pode ter uma caixinha pintada de verde menta e dourado, igualzinha a que eu pintei para colocar flores no banheiro.
A é, lá a gente coloca flores no banheiro, só para ficar bonito. E usa luzinha de Natal o ano inteiro, porque é bacana parecer que ta nevando com criptonita branca.
Todo marciano tem pelo menos uma caixinha de cacareco, que vai usar um dia, pra fazer um presente bem bonito pra um amigo que merece todo o carinho que a gente sabe dar.
E se usa muita cola, restinho de papel, tesoura sem ponta e tampinha de garrafa. E todo mundo lá tem cheiro de amaciante de roupas, e quando abraça dá uns tapinhas nas costas, e quando revê aquela pessoa abre um sorriso e a torneirinha das lágrimas, mas nem dá pra ver, porque lá em Marte a gente faz curso de ator e finge que espirra quando chora, e finge que corre quando tropeça.


Agora eu tenho uma furadeira, to tão feliz!

segunda-feira, 17 de junho de 2013

No escurinho do teatro


Quarenta e nove, cinquenta! Lá vou eu! Escondeu, escondeu, quem não escondeu morreu!
Depois disso já se passaram umas três semanas e nem sinal dos meus óculos. Eu quase não preciso, só em dias de muita dor de cabeça ou quando sento lá no fundão na aula.
Ontem eu achei que iria precisar. Show do Vitor Ramil, eu lá longe, entrei no escuro, cadê meus amigos?
Pois não é que naquele fiapo de luz, só sobre o Vitor, um mar de gente escura, de costas pra mim, eu reconheci cada um. A gente guarda no fundinho da memória e no calor do coração o contorno de quem a gente gosta.


(pode continuar escondido)

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Levanta, senta, levanta


De longe se vê uma nuvem preta se aproximando, ela é feita de arrogância, falta de educação, pressa, fome, intolerância. Ela tem nervos, pensa rápido e só sabe pintar o rosto das pessoas de cinza, tudo cinza. A gente corre um pouco, ela sussurra, a gente quer ouvir, ela consegue nos alcançar. Perdi a cor, perdi o valor.
Comecei a pintar de cinza, a mim, aos outros, ao meu redor.
Tinha vento, tinha poeira, tinha nojo, tinha um coelho branco dentro de mim.
Quando eu apaguei as luzes uma mágica se fez. A nuvem não gosta de escuridão, não gosta de algo mais forte do que ela. Passou, já passou.
Quanto mais eu suspiro mais eu sei que to abraçando alguém que tinha se perdido.


(não, eu não me droguei, eu não acabei um namoro nem estive presa)



terça-feira, 28 de maio de 2013

Para onde foi?

   Eu escrevi um texto enorme e ele sumiu! Mas foi culpa minha, eu apaguei. E não foi só o de hoje, já mandei pelo ralo do delete muitos outros, sempre me perguntando para quem eu escrevia aquilo? Pensei que tinha criado um personagem de mim. Me deu vergonha, me deu medo, me deu arrependimento. Tudo antes de reler tudinho. Depois da loooonga leitura passou. Porque eu não vi falsidade ali, não achei o personagem.
    Devagarinho eu volto, talvez com mais cautela, ou talvez com menos. Só duas coisas posso garantir que tenho mais: idade e gordura localizada. Rá!

domingo, 4 de setembro de 2011

A boa vida que se leva




Não há nenhum alarde a ser feito, mas desde o início do ano passei a tomar remédio para o coração, por conta de uma má formação. É bem ruim receber a notícia de que isso seria preciso e para sempre, a gente entra em um estado, a princípio, de dúvidas mil e quer ir a outros médicos e quer fazer medicina para se curar, mas essa minha mania de achar que posso resolver todos os problemas, meus e dos outros, contribuiu muito para essa necessidade de medicação, a forte pressão, que eu mesma me faço, me levou a um estado de stress que tenho tentado contornar.
Nessa vontade de me fazer o bem eu vi quanta gente o faz despretensiosamente, seja com a publicação de uma foto fofa, com o disseminar de um poema, de um trecho de livro, compartilhar o lanche, ensinar, estender a mão, montando um daqueles Power-points que a gente recebe e torce o nariz, mas quem te mandou só queria te agradar e quem o montou só queria que a gente agradasse aos outros
Pequeninas disposições, de gente boa, e é desse tipo de gente que eu to rodeada. Isso enche meu coração de orgulho e me faz pedir a Deus que me ajude a retribuir tudo que eu ganho, direta ou indiretamente.
Muito obrigado por terem me conquistado e me deixado conquistar vocês, a família que eu tenho (e a que eu quero ter), os amigos, os melhores do mundo, o meio em que eu vivo e a tudo o que tenho acesso.


Matheus, para ti faço um agradecimento especial.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Eu fui no show do Jack Johnson

Mas a "ida" foi um show a parte...

Era aniversário da minha sogra no mesmo dia e meu cunhado mora em Porto Alegre, ela em São Lourenço, então para a família passar unida... Bora todo mundo pra capitarrr!
Eu não sei dirigir em Porto Alegre, nem adianta tentar, é tanto carro que eu esqueço até qual é o pé da embreagem, então a gente (eu e o Matheus) fomos de ônibus até São Lourenço e de lá fomos de carro com os pais do Matheus até... até... O Cristal! Perai que eu já explico o porquê desse passeio em família de apenas 30 minutos. Antes quero dizer que presságios de um dia engraçado começaram na rodoviária aqui de Pelotas mesmo, quando, no sossego daquele banco da frente, com a galera quase dormindo às 6 da matina eu escuto um estouro, tipo caiu alguém na escadinha. Realmente caiu, o motora, levantou vermelho e limpando a roupa, isso bem na minha frente, tem como não rir? E tem como não rir do motora falando para o cobrador "quase caí" se eu vi ele se estabacar na minha frente?!
De Pelotas até São Lourenço, depois disso, foi tranqüilo, lá nossa carona já nos esperava, foi descer do ônibus e subir no carro. Cochilei e quando acordei era uma buzinada seguida de fachos de luz que já me acordei no "ai meu Deus do céu, perdoa, ajuda...". Um caminhão que vinha atrás nos deu sinal de luz para avisar que tinha alguma coisa errada, era uma fumaceira saindo do carro. A gente parou no acostamento e pediu socorro da Ecosul, bem legal passear encima do guincho, adorei!!!
Queimou uma tal de junta, parece brincadeira, mas dizem que foi isso mesmo. Com esse pequeno empecilho os pais do Matheus tiveram que voltar para São Lourenço e a gente, com ingresso garantido, iríamos de qualquer jeito, de qualquer jeito mesmo.
Achar a rodoviária de Cristal foi uma barbada, uns 6 passos para a direita, já os horários de ônibus nem um pouco atraentes, pensando que ainda ia ter que ficar esperando meia hora na serração propus "vamos pedir carona na faixa?", e o Matheus aceitou.
No primeiro dedinho apontado para a estrada parou um caminhão, a gente não acreditou de primeira mas resolveu ir até o caminhão. Era carona mesmo, num caminhão de tijolos, carona até Camaquã, com um caminhoneiro bem gente fina.
Quando chegamos em Camaquã, a idéia inicial era ir até a rodoviária, mas, acreditando na nossa sorte, resolvemos ficar pelo trevo mesmo. Mais uns quinze minutos na serração e... Carona até Porto Alegre, EEEEEEEEEEEEEEEEEEE!
Esse segundo caminhoneiro falava muito em morte, resolvi dormir sentadinha ali no banco do carona e o Matheus, que foi deitadinho na cama do caminhoneiro, teve que sustentar a conversa até lá, hehe.
Beleza, nos largou na entrada da cidade, pegamos um ônibus e fomos almoçar no mercado público (detalhe, a gente saiu de Pelotas às 6 e isso já era quase uma hora da tarde).
Do mercado a gente foi andando até o Gasômetro, dar uma olhada no visual, descansar e depois seguir para um lugar mais seguro. De lá a gente pegou outro ônibus (onde mais uma pessoa caiu na nossa frente, uma moça que vinha dormindo sentada e bailou na curva, tadinha) e foi para o Barra Shopping, comer, fazer xixi, lavar as mãos, escovar os dentes, não necessariamente nessa ordem.
Umas 8 da noite a gente começou a se mexer para ir para o show, outro ônibus até o Gigantinho e lá na frente esperar bastaaaaaaante até que o trabalhador do Márcio (meu cunha) conseguiu chegar. Entramos, show muito legal, Jack mais legal ainda. Acabou o show, a banda foi embora, começou a gritaria do "mais-um-mais-um" e ele voltou sozinho, pegou a viola e cantou mais umas 5 músicas, é um querido mesmo.
Acabou o show um pouco antes da meia noite, o Márcio resolveu ir com a gente até a rodoviária para ir para São Lourenço, afinal era aniver da mãe dele né, a gente voltaria para Pelotas. Sóóóóóó, que o senhorito Márcio tinha que passar em casa para pegar as roupas e nisso chegamos na rodoviária 2 ônibus depois, com 40 minutos de atraso e perdemos o último ônibus para Pelotas. Beeeeem legal dormir na rodoviária de Porto Alegre!!! Por que não tem vidro em todas as janelas? Por que uma pessoa passou mal e eu acordei com a SAMU bem na minha frente? Por que o único bar limpo fecha? E o principal, POR QUE UMA CAPITAL NÃO TEM NENHUM ÔNIBUS CHEGANDO OU PARTINDO DE SUA RODOVIÁRIA DURANTE TODA MADRUGADAAAAAAAAAA??? Um big puta que pariu!!!
Às 6 da matina, quando o ônibus chegou eu não sabia se espancava o motorista ou dava um beijo na boca dele. Dai foi só dormir até Pelotas, pegar outro ônibus da rodoviária daqui até minha casa e dormir a tarde toda.

Mas eu faria tudo de novo, tirando a parte da rodoviária :)

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Barriga pra dentro, bunda pra trás, peito pra cima

Calcinha fio-dental rasgando
Sutiã estrangulando
Ficar de pileque é vulgar
Mas e usar cinta-liga para agradar?

Postura, postura, postura
Progressiva, anfetamina, Maracugina

Retocar a raiz
Empinar o nariz
Joanete bombando
Mas na pose andando

Postura, postura, postura
Progressiva, anfetamina, Maracugina

Banho de creme
Banho de sais
Bronzeamento
E muito mais

Postura, postura, postura
Progressiva, anfetamina, Maracugina

Depilação
Esfoliação
Drenagem linfática
A coisa ta crítica

Postura, postura, postura
Progressiva, anfetamina, Maracugina

Olhares
Andares
Faz pose
Olha o close

Postura, postura, postura
Progressiva, anfetamina, Maracugina

Abdominais
Exercícios faciais
Fazer o pé, fazer a mão
Manter o carão

Postura, postura, postura
Progressiva, anfetamina, Maracugina...

quarta-feira, 16 de março de 2011

Acordar às 5:30 da matina não foi nada, perto do que viria...

Banho bom, achar uma roupa, nem tão bom assim, café não podia, era jejum o esquema, e olhem que não foi promessa, até porque jamais farei promessas desse tipo, não vejo propósito nenhum em deixar de comer para alcançar alguma graça. Que tal fazer uma bondadezinha por essa permuta, hein pedintes?!
Lá fui eu rumo a Santa Casa de Misericórdia de Pelotas, estacionamento farto e eu quase tendo um infarto de tanta fome (sim, fome da infarto). Esperar uma hora para fazer exame de sangue é uma coisa que só aumenta minha tensão e me remete a um momento 6 anos de idade, quase em posição fetal na sala de espera. Tenho medo daquele furinho e daí?
A simpatia da enfermeira foi pelo ralo da bondade quando ela me disse: - Rápido, coloca rápido essa manga da blusa para baixo, porque vai começar a JORRAR sangue. A vontade de chorar me veio de súbito e eu só pensava na minha mãe e no meu café que eu não tinha tomado, e se eu fosse uma torneira de sangue no meio de um ambulatório, com a fome que eu tava, o desmaio era certo.
Bloqueei a paranóia e segui.
Subir MUITAS escadas (dois lances), perder TODO aquele sangue (que ficou na amostra) e ainda com o agravante da fome (essa sim, tava big), me fez pensar que eu tava no “No Limite”.
Quando se está morrendo de fome a pior coisa do mundo que podem te dar para ingerir é bário! Sabem o que é isso? Aquela gosma branca, mix de iogurte, maisena, requeijão talhado, farinha de tapioca e bário, claro! Por que a medicina avança e não mudam o método de Raio X?
- Toma, só engole quando eu mandar.
- Aham.
- Ta moça, coloca na boca!
- Calma ai, to pensando, que saco!
- Pensando no que?
- Tu não era pra ta lá atrás da parede? Olha a radiação, olha a radiação.
- Sim, eu vou pra lá depois que tu colocar isso na boca.
- Aham, e eu vou ter que ficar com isso na boca esperando tu andar até lá?
- VAI!

Vontade de chorar de novo, que saco, como a gente é despreparado para situações em hospitais.

Tomei né, fazer o que.

- Ó moça, espera ali na salinha que eu vou ver se deu certo.
- E se não deu?
- Tem que fazer de novo.
- Aham, mas daí vamos fazer um brinde, cada um toma uma tacinha dessas, em comemoração :D
(silêncio)

- Deu, pode ir embora... Aaaaa moça...

(coooooooooooooooooooooooorreeeeeeeeeeeee)

- Espera ai, teu um banheiro aqui, se tu quiseres limpar a boca...

Que limpar a boca que nada, eu quero é me mandar.
Último exame, ecocardiograma, tri massa, se desligassem o ar condicionado o aparelho do exame também se desligava. Todo mundo de blusão na sala e eu só de calça jeans com uma enfermeira sem noção que não parava de abrir a porta. Peitcheeeeeeeeeeenho!
Parece uma ultrasonografia, só que do coraçãozinho, aaaaaaaaaai que lindo! Lindo se eu não tivesse com a fome que eu tava, acho até que se escutavam os roncos da minha barriga no tal aparelho, aquele gel gosma gelado espalhado por tudo (pensem o que quiserem, porque eu também pensei hauheauheuahe)
No fim do massacre entendi porque o enfermeiro queria tanto que eu passasse no banheiro antes de sair do Raio X. Desfilei por todo hospital com um bigode branco, linda, linda!

terça-feira, 15 de março de 2011

Ai ai

Ser brotinho não é viver em um píncaro azulado: é muito mais! Ser brotinho é sorrir bastante dos homens e rir interminavelmente das mulheres, rir como se o ridículo, visível ou invisível, provocasse uma tosse de riso irresistível.

Ser brotinho é não usar pintura alguma, às vezes, e ficar de cara lambida, os cabelos desarrumados como se ventasse forte, o corpo todo apagado dentro de um vestido tão de propósito sem graça, mas lançando fogo pelos olhos. Ser brotinho é lançar fogo pelos olhos.

É viver a tarde inteira, em uma atitude esquemática, a contemplar o teto, só para poder contar depois que ficou a tarde inteira olhando para cima, sem pensar em nada. É passar um dia todo descalça no apartamento da amiga comendo comida de lata e cortar o dedo. Ser brotinho é ainda possuir vitrola própria e perambular pelas ruas do bairro com um ar sonso-vagaroso, abraçada a uma porção de elepês coloridos. É dizer a palavra feia precisamente no instante em que essa palavra se faz imprescindível e tão inteligente e natural. É também falar legal e bárbaro com um timbre tão por cima das vãs agitações humanas, uma inflexão tão certa de que tudo neste mundo passa depressa e não tem a menor importância.

Ser brotinho é poder usar óculos como se fosse enfeite, como um adjetivo para o rosto e para o espírito. É esvaziar o sentido das coisas que transbordam de sentido, mas é também dar sentido de repente ao vácuo absoluto. É aguardar com paciência e frieza o momento exato de vingar-se da má amiga. É ter a bolsa cheia de pedacinhos de papel, recados que os anacolutos tornam misteriosos, anotações criptográficas sobre o tributo da natureza feminina, uma cédula de dois cruzeiros com uma sentença hermética escrita a batom, toda uma biografia esparsa que pode ser atirada de súbito ao vento que passa. Ser brotinho é a inclinação do momento.

É telefonar muito, estendida no chão. É querer ser rapaz de vez em quando só para vaguear sozinha de madrugada pelas ruas da cidade. Achar muito bonito um homem muito feio; achar tão simpática uma senhora tão antipática. É fumar quase um maço de cigarros na sacada do apartamento, pensando coisas brancas, pretas, vermelhas, amarelas.

Ser brotinho é comparar o amigo do pai a um pincel de barba, e a gente vai ver está certo: o amigo do pai parece um pincel de barba. É sentir uma vontade doida de tomar banho de mar de noite e sem roupa, completamente. É ficar eufórica à vista de uma cascata. Falar inglês sem saber verbos irregulares. É ter comprado na feira um vestidinho gozado e bacanérrimo.

É ainda ser brotinho chegar em casa ensopada de chuva, úmida camélia, e dizer para a mãe que veio andando devagar para molhar-se mais. É ter saído um dia com uma rosa vermelha na mão, e todo mundo pensou com piedade que ela era uma louca varrida. É ir sempre ao cinema mas com um jeito de quem não espera mais nada desta vida. É ter uma vez bebido dois gins, quatro uísques, cinco taças de champanha e uma de cinzano sem sentir nada, mas ter outra vez bebido só um cálice de vinho do Porto e ter dado um vexame modelo grande. É o dom de falar sobre futebol e política como se o presente fosse passado, e vice-versa.

Ser brotinho é atravessar de ponta a ponta o salão da festa com uma indiferença mortal pelas mulheres presentes e ausentes. Ter estudado ballet e desistido, apesar de tantos telefonemas de Madame Saint-Quentin. Ter trazido para casa um gatinho magro que miava de fome e ter aberto uma lata de salmão para o coitado. Mas o bichinho comeu o salmão e morreu. É ficar pasmada no escuro da varanda sem contar para ninguém a miserável traição. Amanhecer chorando, anoitecer dançando. É manter o ritmo na melodia dissonante. Usar o mais caro perfume de blusa grossa e blue-jeans. Ter horror de gente morta, ladrão dentro de casa, fantasmas e baratas. Ter compaixão de um só mendigo entre todos os outros mendigos da Terra. Permanecer apaixonada a eternidade de um mês por um violinista estrangeiro de quinta ordem. Eventualmente, ser brotinho é como se não fosse, sentindo-se quase a cair do galho, de tão amadurecida em todo o seu ser. É fazer marcação cerrada sobre a presunção incomensurável dos homens. Tomar uma pose, ora de soneto moderno, ora de minueto, sem que se dissipe a unidade essencial. É policiar parentes, amigos, mestres e mestras com um ar songamonga de quem nada vê, nada ouve, nada fala.

Ser brotinho é adorar. Adorar o impossível. Ser brotinho é detestar. Detestar o possível. É acordar ao meio-dia com uma cara horrível, comer somente e lentamente uma fruta meio verde, e ficar de pijama telefonando até a hora do jantar, e não jantar, e ir devorar um sanduíche americano na esquina, tão estranha é a vida sobre a Terra.

Paulo Mendes Campos